Duo Drag

Ao pensar no termo Drag Queen, pode-se imaginar uma pessoa com maquiagem forte, vestimenta chamativa e peruca em molde escultural. Na verdade, quem se debruçar sobre as histórias delas, verá artistas que encontraram uma forma de se expressarem livremente, de se posicionarem, de performar o que desejarem e como desejarem, burlando as barreiras e expectativas determinadas pela sociedade. Tentar narrar uma história da arte Drag Queen é falar sobre a potência artística que cada uma das artistas carrega, a sobrevivência cotidiana, os estigmas, as cicatrizes, as glórias e a luta pelos direitos da comunidade LGBTQIA+. Na cidade de São Paulo, as Drag Queens começaram a se notabilizar a partir do final da década de 1980, ainda que sob a onda de medo e devastação causada pelo vírus HIV e por todo o desconhecimento sobre ele, e em 1990 viveram momentos de grande destaque, envolvendo o trabalho de diversos artistas como estilistas, cenógrafos, peruqueiros, aderecistas, coreógrafos, bailarinos, djs, dentre tantos profissionais que trabalham por trás da cena. Muitas das que movimentaram esse período seguem suas carreiras. Eu lembro que quando Paulo Vitale me mandou o livro Duo Drag, com curadoria do Jean Cavalcante, fui tomado pelo encantamento e beleza criados pelas 50 Drags retratadas e quis que mais pessoas pudessem vê-las. E assim foi concebida esta exposição. Aqui estão Drag Queens da cidade de São Paulo, reunindo as que têm carreira há anos e as que começam suas trajetórias agora. Cada uma carrega uma infinidade de histórias. Há as histórias de sucesso, as histórias dos shows, dos backstages, de quando voaram penduradas sobre o público de uma boate, dos figurinos glamurosos e dos feitos com cola quente, mas há também as histórias de discriminação e da vida de uma artista deixada à margem. E há os sonhos, que emergem a cada performance ou aparição. Esta exposição é uma celebração. As Drag Queens estão em um museu. Isso é luta. Isso é festa! Leonardo Birche, curador da exposição.

Photographer
Camera

Paulo Vitale

Era dia de campanha publicitária no meu estúdio. Dia tenso, com modelos, clientes, publicitários, assistentes, produtores, figurinistas e maquiadores ziguezagueando freneticamente, como sempre acontece nesse tipo de trabalho. Antes dos ensaios fotográficos, costumo me refugiar no meu escritório, que fica no andar superior do estúdio, para me concentrar e rever mentalmente as imagens que preciso produzir. Nesse dia, meu exercício de abstração foi interrompido por gritos de “Samantha”, “Uau”, “Arraso”, “Olha a Samantha, gente”. Intrigado e meio incomodado, caminhei até o camarim e vi o maquiador Jean Cavalcante de pé, rodeado de gente, segurando um celular que magnetizava os olhares. Perguntei: “Jean, quem é a Samantha”? Com o olhar maroto, ele respondeu: ‘É a minha drag, quer ver”? Rapidamente minha prática de abstrair e criar imagens na cabeça concebeu uma Samantha imaginária. Espiei a foto da Samantha no celular e fiquei fascinado com a dualidade. Nesse momento surgiu o desejo de fotografar essa transformação. Nascia ali este projeto. Este é um livro de retratos, não é um ensaio de moda ou beleza. Por isso optei pela ausência de intervenções significativas de Photoshop na pele, formas, roupas e adereços. Meu intuito foi trazer uma sensação próxima a que eu vivenciei fazendo esse ensaio, ou seja, um contato mais fidedigno com as pessoas fotografadas. Procurei abarcar as diversas vertentes dessa representação artística e convidei drag queens de vários nichos - amadoras e profissionais, famosas e anônimas, ícones e iniciantes. Não me preocupei em fazer um livro apenas com artistas renomadas e com alto nível de excelência profissional. Meu intuito foi explorar a magia única de cada caracterização, pois ao usar o próprio corpo como base, essa manifestação artística é visceral e libertadora. Além dos retratos, fiz entrevistas com todas as personagens e descobri que a grande maioria é tímida e reservada e usa a caracterização como uma roupa de super-heroína, um escudo protetor. Drag queens são poderosas. Dedico este livro aos que embarcaram nessa ideia e dedicaram horas se preparando, no mesmo camarim onde descobri que o Jean era também Samantha. Agradeço pelo imenso aprendizado proporcionado pela convivência com essas pessoas que têm coragem e liberdade nas veias. Ao observar esses retratos, faça como elas: divirta-se. Paulo Vitale

Exposição Duo Drag  de Paulo Vitale

  de terças a domingos, das 10 às 18h

Local; Museu da diversidade Sexual  Estação República do Metro  Entrada: Gratuita